Vestibular

Ausência 

Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada

  • Análise 

Este poema, escrito em 1935, quando o poeta tinha apenas 22 anos, revela uma forte marca romântica, decadentista, bem ao gosto do final do século XIX.

Trata-se de um lindo poema com longos versos livres, em que se desenham imagens de amor e desprendimento, que expressam a paixão e a angústia de um amor que não poderá se consumar.

O ideal do amor romântico e inatingível está presente em toda a extensão de seus versos. Porém, quando reclama a“terra amaldiçoada”, percebe-se que o poeta usa um vocabulário muito forte para o delicado e sutil romantismo, o que aponta para uma estética ainda mais pessimista e aproxima os versos da heresia simbolista.

Também se pode entender pelo verso: “Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto”, que esse cansaço é o tédio ou a melancolia que acompanham toda alma sensível e que nem o amor escapa de suas forças, que, por sua vez, remete-nos aos versos simbolistas de Baudelaire em suas Flores do Mal, quando o spleen e o flaneur tornaram-se moda entre os artistas, pois lhes designavam sentimentos profundos e condizentes com o mundo moderno daquela época.

Sendo assim, Ausência é um lindo poema de amor, em que sentimentos como a sinceridade, a paixão e o desprendimento acabam por enriquecer de nobreza os sentimentos do enamorado, que pouco acredita no amor convencional. E para manter a chama sempre acesa da paixão, prefere o idealizante amor platônico, cuja distância, de alguma forma, colabora para a eternização da mulher amada:

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.  Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite 

PROFA. CARLA CHINAGLIA PARA O SITE

 

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